terça-feira, 23 de agosto de 2016

Nei Alberto Pies escreve: Liderança e reconhecimento: uma construção social.

Vendem-se por aí pacotes com dicas e propostas para quem quer
exercer liderança em diferentes grupos ou segmentos sociais. Estas
propostas buscam despertar a liderança das pessoas ou buscam, tão
somente, ensinar jogos e combinações de manipulação de outros em favor
próprio? A capacidade de liderar é algo que pode ser ensinado? Os
diferentes grupos sociais aceitam o mesmo padrão de liderança?
Existem outras questões que, há tempo, me intrigam: as pessoas nascem
com o dom de serem líderes? Dá para a gente impor um estilo de
liderança para todo mundo? Em que medida é possível medir o grau de
confiança entre lideranças e liderados?

Somos seres sociais em busca de reconhecimento. A maioria das pessoas
busca este reconhecimento através das habilidades e competências
inerentes ao seu trabalho e sua atuação social. Esperam, assim, um progressivo
reconhecimento dos demais pares. Quando a liderança não é imposta, há
um desejo de mútuo reconhecimento, respeitando os diferentes papéis e
responsabilidades
de cada um. Há, no entanto, um porém: mesmo legítima e aceita pela
maioria, uma liderança nunca será unanimidade.

Quando a ascensão das lideranças se dá de forma quase natural, não
gera tantas resistências e incompreensões. Geralmente,
as oportunidades de liderança surgem a partir de destaques pessoais,
associados a uma oportunidade de exercício de poder. Exercer certa
liderança sempre nos dá poder. Este poder sempre nos é delegado por
alguém, ou por um coletivo que acredita em nossas capacidades pessoais
para representar os interesses da coletividade. Se assim não o for,
não é legítimo e não deve ser reconhecido.

Muitos, ao ocuparem certa posição social ou autoridade, personificam o
próprio poder, tornando-se eles próprios a razão de ser do poder e da
liderança. Distanciam-se da coletividade que representam, tornando-se
uma grande ameaça à mesma. A forma de exercermos liderança tem a ver
com a nossa personalidade, o nosso jeito de lidar com a vida e com o
mundo. A agressividade, que muitos pregam como ponto forte para quem
deseja liderar um grupo social, nem sempre é a melhor forma de
interação coletiva. O carisma, ou a falta dele, é um fator fundamental
para consolidar uma liderança.

A sensibilidade, para a percepção das necessidades do grupo liderado,
é indispensável para o reconhecimento de nosso papel de líderes; o
diálogo permanente é a melhor forma de reatar os laços de confiança,
esclarecer dúvidas e incompreensões; a disponibilidade de servir, mais
do que ser servido, é o gesto mais nobre e verdadeiro de uma grande
liderança.

Quem exerce liderança deve ter a percepção dos limites de seu poder. O
lugar que ocupa sempre é transitório e se dá dentro de um contexto
histórico. Sempre haverá alguém com mais poder acima dele, como também
existe poder que vem de quem está abaixo de sua posição social. Não
acreditamos que liderança seja uma “capacidade nata”. Acreditamos que
há predisposições pessoais que podem colaborar para alguém exercer uma
grande liderança. A capacidade de liderança pode ser aperfeiçoada por
cada um de nós, pois ninguém é totalmente incapaz e, igualmente,
ninguém está totalmente preparado para servir os outros. A liderança e
o reconhecimento social são conquistas cotidianas de quem pretende liderar
pessoas.















Professor, escritor e ativista de direitos humanos.
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Área de anexos

sábado, 20 de agosto de 2016

Teste de visão será realizado em comemoração ao Dia da Infância



Em comemoração ao Dia da Infância, celebrado em 24 de agosto, o projeto Vi-Vendo aplicará testes de visão em crianças entre 5 e 10 anos de idade. Os exames serão feitos na Capelania, que fica no Campus I da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), das 9 às 11h e das 14 às 17h.

Todas as crianças com a faixa etária contemplada podem comparecer à programação. O exame é gratuito, mas serão aceitas doações de agasalhos ou um quilo de alimento não-perecível. No teste de visão é utilizada a Escala de Snellen e através dela as crianças são informadas se tem ou não problemas. 

A aplicação do teste é simples, de baixo custo e pode ser feita em cerca de dois minutos. Para fazê-lo, é preciso a utilização de uma tabela (escala que utiliza a letra E em diversas posições) e que deve ficar a cinco metros da criança. O local também deve ser tranquilo e bem iluminado. Caso o teste aponte algum problema, ele deve ser repetido em um outro dia, por uma outra pessoa. Através do teste, que pode ser aplicado por qualquer pessoa treinada, suspeitas de déficit visual podem ser detectadas e preventivamente tratadas. 

O exame faz parte do programa UCPel Mais Saudável, e virou projeto de lei, aprovado pela Câmara de Vereadores de Pelotas. No entanto, ainda falta regulamentação pela Prefeitura de Pelotas, que determinou a realização de estudo e planejamento para a implantação do programa com segurança e eficácia.


terça-feira, 9 de agosto de 2016

Nei Alberto Pies escreve: Reflexões contemporâneas e urgentes




Vivemos num momento histórico rico, denso e controverso. A realidade contemporânea tem diferentes textos e contextos, que precisam ser lidos e interpretados. Nesta perspectiva, junto aqui alguns pequenos textos por mim elaborados e publicados, em separado. Juntos, pretendo dar a eles um contorno e uma articulação, cuja intenção é dar maior interpretação ás diferentes realidades nas quais estamos inseridos.

*
Um dos maiores desafios do mundo contemporâneo: recomeçar. Recomeçar não é começar do zero, mas fazer de novo com mais experiência. Este desafio aplica-se à vida pessoal, às organizações, aos partidos, às escolas, aos diferentes coletivos. Para tanto, é necessário desaprender para aprender de novo. Quem tiver humildade e coragem para tanto, será mais equilibrado e mais realizado.
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Quem luta também educa. Quem ama, também educa. Quem não anula e menospreza sua consciência, ganha mais vida na dignidade, justamente por assumir-se como é. Para os educadores, a educação não é um fim, mas sempre meio para estimular as condições subjetivas, materiais e sociais para que toda pessoa possa sonhar e conquistar sua felicidade. Para que a felicidade aconteça, é preciso muita coragem para viver e para lutar por nossos direitos e nossa dignidade.

*
Nem padre, nem pastor ou líder religioso, sou professor! Como líder religioso, falaria apenas a partir de uma religião. Como professor, posso apresentar o conhecimento acumulado de várias religiões, sem comparar e desmerecer uma em detrimento de outra.

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Aos vencedores, a glória. Aos vencidos, os sentimentos de incompetência, revolta e impotência. E estes últimos sentimentos geram muitas tensões sociais e de convivência, desfavorecendo nossa condição de seres em relação.

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Eu tenho convicção de que os poderes da república precisam ser autônomos e respeitados, mas que a solução dos problemas brasileiros não será fora da política, da democracia e da representação dos diferentes interesses da coletividade, através dos parlamentos. A maioria dos políticos atuais me envergonha, mas isso não me dá o direito de desacreditar na política. Para o Brasil evoluir, precisamos de uma ampla e irrestrita reforma política, que não interessa aos atuais mandatários e políticos.

*
O sentido maior da compaixão para com os pobres: não os defendemos por serem bons ou anjos, mas porque são parte de uma sociedade desigual, que não sabe lidar com eles.

*
O político na educação não é o ideológico-partidário. O
político na educação refere-se sempre às ações e intervenções na
sociedade.

*

A desobediência civil, através da irreverência, do inusitado, do inesperado e da surpresa sempre foi uma forma que os ativistas do mundo afora encontram para chamar atenção de suas causas. O que não podemos admitir são as reações estúpidas das forças policiais que tem por missão defender, não atacar. Não queiramos ensinar ninguém a protestar.















Professor, escritor e ativista de direitos humanos
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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Luís Borges* escreve: O mistério do amor


Para Cris, minha linda e estimada esposa.          


“O casamento feliz é e continuará a ser a viagem de descoberta mais importante que o homem jamais poderá empreender.” (Soren Kierkegaard)




Falávamos sobre os “tempos bicudos”, como dizia o saudoso Mario Quintana. Em vista disso, comentei, pois, que já amanhecia cantando aleluia (a rigor, aleluia não admite plural). O meu jovem interlocutor, professor de língua portuguesa e literatura, que atende pelo primeiro nome do célebre personagem dos “Les Misérables” (1862), Jean Valjean, perguntou o porquê de tão inusitado estado d’alma. Respondi, qual Manuel Bandeira: “Que é de ti, melancolia?/Onde estais cuidados meus? Sabei que a minha alegria/É toda vinda de Deus...”

Tenho até vergonha. Talvez seja afronta. Sou feliz. Simplesmente. Quais os motivos? Muitos e nenhum. Uma felicidade que se explique, é, por natureza, falsa. Mas se, contudo, tivesse de dar satisfações de minha tão estranha felicidade em meio a um mundo tão mau, diria sem titubear – o amor. Estar unido a quem se gostaria de estar é, com efeito, caso bem raro. Mais raro ainda é confessar essa façanha, que nos confere no instante indefinível o sabor da eternidade, principalmente, numa civilização como a nossa, que decretou o descartável como um verdadeiro culto.

A alegria do amor, porém, não se entrega de imediato, como a paixão. É preciso apurar o paladar do coração. Digo coração no sentido em que lho entendiam os antigos hebreus. Em geral, estamos acostumados a associar o coração às emoções. Assim também o via o Povo do Livro, mas com uma sensível diferença da nossa forma de conceber, pois consideravam o coração como o centro do intelecto, das capacidades mnemônicas e volitivas. Dessa forma, quando a Bíblia nos convoca a amarmos a Deus de todo nosso coração, como em Deuteronômio 6.5, se refere à integralidade de nosso ser: razão e sentimentos. 

Na forma do paleo-hebraico, o vocábulo “coração” (“Lev” em hebraico) é formado por duas letras. A primeira letra, chamada lâmed, tem o desenho do cajado de um pastor, símbolo de autoridade. O antigo pastor de ovelhas utilizava seu cajado para direcioná-las a um rumo específico, como uma fonte de água ou pastagem. Essa letra, em hebraico, quando unida a uma palavra, adiciona a preposição “para” a esta palavra. A segunda, chamada beit, que significa “casa”, tem o desenho da planta baixa de uma tenda nômade, trazendo a ideia de estar dentro de uma habitação. A própria letra beit, quando precede uma palavra, possui a função da preposição “em”. Por exemplo, em hebraico, a palavra midbar significa “deserto”. Se colocarmos o beit, fica bemidbar, palavra que significa “no deserto”, que é o nome original do livro de Números. Quando estas duas letras estão combinadas, elas representam o sentido de “autoridade interior”. Ou seja, o coração é aquilo que “governa a casa”, isto é, o modo como a razão, a consciência e as emoções fundamentam e norteiam as atitudes humanas.

O amor é um alumbramento. Definir o amor? Ora, tenham santa paciência! Isso é tarefa impossível; vivê-lo, porém, é (pro)vocação indispensável. Começamos a reconhecer o amor, não pela sua face impetuosa, mas pela porta gentil da ternura. Os pequenos grandes nadas. O amor, todavia, é um tanto incômodo, eis que se instala na sala de jantar de nossa vida, como se nascesse uma flor, parando o tráfego, no meio do concreto. Mesmo os mais loucos dentre nós, estávamos tranquilos em nossas vidinhas burguesas antes de sua chegada. Estava tudo tão bem organizado: nossos sonhos, nossos ideais, nossas ambições e misérias. Mas o amor, como o próprio Deus, não é um personagem manipulável. Quiçá, desenhamos um tipo ideal: a cor da tez, a medida dos quadris e, é claro, os olhos fatais. Quanta ingenuidade! O amor é muito mais perigoso! A atração é apenas a antessala do amor. Talvez seja por isso que estou em lua-de-mel há mais de uma década. Alguns pratos quebrados? Sim, mas o que são alguns cacos, diante de uma grande coberta de mesa?

O amor é esperto e faz tocaia, nos pegando desprevenidos, soprando uma novidade inquieta que traz paz. Finalmente, desorganiza nossas velhas certezas, revela nossos medos e subverte a hierarquia que havíamos estabelecido. A beleza do amor é sorrateira. Isso porque é mais ousada e surpreendente; está livre de estereótipos. Liberta-nos de nossas tolas idealizações, pois irrompe em vida, com a riqueza das lágrimas, a sonoridade dos risos e a intensidade das canções. O amor nos conduz, náufragos, a um porto seguro.

O amor ágape, mais elevado que o amor erótico (que não deve ser desprezado) é, como tal, transcendente, estando além de toda definição possível. Nessa medida, para usar a feliz expressão de Gabriel Marcel, é “mistério”. Um amor puramente romântico, que liga dois seres dentro de um restrito universo de prazer e egoísmo seria indigno dos arcanos mais profundos. Para o psicólogo Erich Fromm em sua conhecida obra “A arte de amar” (1956), ao contrário do senso comum, afirma que o amor não é algo fácil de ocorrer ou espontâneo, ele deve ser aprendido; ao invés de um mero sentimento que acontece, é uma faculdade que deve ser cultivada para que possa se desenvolver - pois é uma "arte", tal como a própria vida. 

O mito do amor romântico ou cortesão aparece como o domínio do desejo incontrolável e transgressor. É uma espécie de encantamento.  O escritor latino Horácio, num dos seus Epodos (Epodo V), escrito em 30 a. C., já o relata, referindo-se à composição de um “elixir do amor”, a partir do fígado de uma criança que as bruxas fizeram morrer lentamente. Na Idade Média, ressurge com o mito de Tristão e Isolde, no qual o casal que dá nome à história se apaixona após beber a poção por engano, engendrando-se ali um caso de adultério. Nas primitivas versões da história o elixir teria efeito temporário, ao passo que nas versões da literatura cortês seu efeito seria perene. A versão cavalheiresca do mito dá a conotação do conteúdo trágico que envolve o amor-paixão. A literatura e as artes, em geral, não cansaram de explorar esse tema, do que são exemplos clássicos a ópera “Elixir do amor” (1832), do compositor italiano Gaetano Donizetti, e a versão de Goethe do mito de Fausto (1808), em que Mefistófoles dá ao personagem-título de beber, na cozinha de uma feiticeira, a poção do amor.

Como se pode observar, o assunto é longo e complicado, extrapolando, evidentemente, os limites deste singelo artigo. Entretanto, basta que situemos, no Ocidente, o mito do amor romântico como um engodo desastroso e infantil, que tomou força no século XIX com o movimento artístico-filosófico (e até mesmo teológico, embora não da ortodoxia cristã) que se intitulou Romantismo. Durante o romantismo o amor-paixão passou a ser encarado como o fator mais essencial da vida. Todavia, constituia-se num sentimento irracional e, na maioria das vezes, destrutivo, masoquista e individualista. Tal desenho do seja o amor infesta até hoje a sopa rala das novelas televisivas e das músicas que embalam a indústria cultural.

Para o filósofo Zygmunt Bauman vive-se uma era de "amor líquido". A realidade virtual fez com que os relacionamentos ganhassem mais fluidez em comparação aos laços reais (que exigem maior exposição e compromisso), em que sempre há a alternativa de "deletar" uma relação com o simples apertar de uma tecla. Nesse sentido, as relações se tornam irrelevantes e não se fundamentam sobre a honestidade e a transparência, sendo improvável que se sustentem. Assim, se por um lado romper os laços ficou fácil, por outro, não reduzem os riscos, somente os ignoram e mascaram.

A concepção bíblica do amor é completamente diferente. Em artigo publicado, em 1999, na revista Estudos Avançados, intitulado “Cinco teses sobre a relação da religião com a política”, até pensadores antimetafísicos como Mangabeira Unger reconhecem que "uma experiência religiosa fundada na dinâmica personalista da transcendência e do amor acaba subvertendo os privilégios e as exclusões étnicas, nacionais, culturais e de gênero, mesmo quando parece atribuir a essas distinções significados e valores religiosos." Para ele, no caso da Bíblia, por exemplo, há duas raízes "subversivas": a primeira é transcender o mundo natural, fazendo da existência um lugar com um sentido e significado, a segunda, é o impulso de tornar-se o indivíduo disponível aos outros, ou seja, engajado no amor.

O amor existe porque existe Deus. Deus é amor (1 João 4, 8). A descrição que as Sagradas Escrituras fazem do amor é sublime, conforme está em 1 Coríntios 13: 1-13. Há como se provar a existência do amor? O amor não é um conceito logicamente demonstrável, mas uma experiência. Como é o sabor do doce? Para conhecê-lo, mais que a fórmula do açucar, basta colocar na boca um pouco de mel. A mais grandiosa experiência de amor foi a de Jesus, pois ele viveu por algo pelo qual valeria a pena morrer.

Enfim, curioso leitor, filósofo de alcova, o amor vai mais longe que teu insensato coração. A despeito dos inúmeros tratados que já abordaram o amor, de Platão a Hanna Arendt, em minha pequenez, o amor se resume àquele difícil, mas incontornável, movimento espiritual que divide a vida em “mexeram nas minhas coisas e sobrevivi a isso” e “morrer abraçado com elas, como um porco e seus espinhos”.    













*Escritor, crítico literário e tradutor. Professor de Filosofia, Literatura e Teologia. Pertence à Academia Pelotense de Letras e ao Instituto Histórico e Geográfico de Pelotas, entre outras instituições culturais. Completou 30 anos de magistério. Membro do Ministério da Igreja do Evangelho Quadrangular. Filiado  à Associação de Pastores de Pelotas. Doutor em História da Educação. 

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Carlos Cogoy* escreve: ÀS 19H DESTA QUARTA, ABERTURA DA PRIMEIRA MOSTRA INDIVIDUAL DA ARTISTA MARTA DUTRA



T
reze obras, sendo onze pinturas, uma pintura/objetivo e uma instalação. Criações da artista visual e educadora Marta Dutra, que estarão na sua primeira exposição individual “Entre-ver”. A abertura acontecerá nesta quarta às 19h no Espaço de Arte Chico Madrid da Sociedade Científica Sigmund Freud – rua Princesa Isabel 280 sala 302. A curadoria é de Eduardo Devens, que coordena o departamento cultural da Sigmund Freud. A visitação poderá ser feita, durante horário comercial, até 2 de setembro.

PALESTRA – A riograndina Marta Dutra está radicada em Pelotas há dezessete anos. Na UFPel, cursou a licenciatura e o bacharelado em artes visuais. Especialista em metodolodia do ensino da arte, é professora de arte no Colégio São José. Um pouco da sua experiência será explanada na palestra que será proferida às 20h. Integrando a abertura da mostra, a artista visual abordará “A artista e o ser professora”. Ela acrescenta: “No primeiro momento discorrerei sobre o meu processo de criação. Na segunda parte, abarcarei sobre minha experiência como professora de arte”. Marta também integra o grupo de pesquisa “Arte e seus territórios” (UFPel/CNPq).
ESTÉTICA – Sobre a mostra que também terá a instalação “Olhares do Mundo”, elaborada com bolas de acrílico, e a caixa de vidro “O relicário do Tempo”, a artista explica: “Tenho como objetivo, captar as tonalidades e variações do céu. Então trabalhei na elaboração de um conjunto de pinturas no qual exploro o olhar sobre o céu. É a expressão de possibilidade para pensar a pintura contemporânea no sentido de apropriação de imagens, agregada ao saber pictórico tingido de uma abordagem teórica”.
COLETIVAS – Na trajetória artística, Marta destaca a participação em mostras coletivas: “Emerge” – primeira edição (Casa Paralela); “Corpo/Espaço” (Casarão 8); “Ecarte – Percursos invisíveis” (Laneira); “VI Inutilitários Bazart” (Ágape); Grupo Gravadores de Rua (Secult); Grupo Gravadores de Rua (DMAE/PoA). Em Rio Grande, junto com o grupo Olhos de Lata, Marta particiou de coletiva no Ponto de Cultura ArtEstação no Cassino.
CONTEMPORÂNEA – “No início tive como principais influências os artistas: John Constable; William Turner e Monet. Mas durante o percurso do trabalho surgiram outros artistas contemporâneos como: Gerhard Ricter e André Rigatti. Em relação a referenciais teóricos,  embaso-me em conhecimentos de autores como: historiadores Giulio Carlo Argan e Alberto Tassinari; pesquisador Paulo Pasta; filósofa Anne Cauquelin. Influenciada por esses autores e referenciais, adoto como conceito  a autonomia da arte, ou seja, a de reconhecer que ela possui leis próprias e não depende, para ser arte, de nenhuma outra atividade e de nenhum outro valor. Então, somente os que possui nela própria e que têm a finalidade nela mesma. Minha arte é contemporânea, ou seja, o artista não se delimita em apenas uma técnica, ele vai além”, diz a artista.
METAS – Neste semestre, Marta participará de projeto em Caxias do Sul. Em outubro, acrescenta, integrará o Catálogo Arte Atual, que será encaminhado a galerias, arquitetos e decoradores das principais regiões do País.







Jornalista

Nei Alberto Pies escreve: O fetiche das ditaduras


“Não existe uma verdade igual para todos. As leis, as regras, a
cultura, tudo deve ser definido para um conjunto de pessoas; o que
vale para um lugar pode não valer para

            O atual momento histórico exige afirmação dos ideais
democráticos. As ditaduras (políticas, de consumo ou de mercado) são
as maiores inimigas das palavras em diálogo e em movimento (que
denominamos democracia). As ditaduras são extremamente hábeis em
reduzir e simplificar o sentido e o significado das coisas que podemos
pensar. Só a democracia permite alargar os horizontes das ideias que
vamos construindo na história. Somente ela é capaz de considerar
contradições e imperfeições dos pensamentos, para aperfeiçoá-los. Por
conta disso, convivemos em permanente tensão entre aqueles que querem
fazer das ideias exercício de liberdade e aqueles que desejariam dizer
aos outros “o que podem e devem pensar e fazer”.


Nossa democracia ainda precisa ser muito mais exercitada,
vivida e experimentada, para ser apreendida. Vivemos, por vezes, uma
equivocada disputa entre ter posição e ser contra. As disputas,
demasiadamente ideologizadas, não permitem que as palavras/conceitos
se revelem em todos os aspectos, sob os mais diferentes pontos de
vista. Ser democrático não significa ser dono da verdade. Significa
estar aberto à construção do conhecimento, considerando as mais
diferentes interpretações das coisas e dos fatos, num processo
dialético de aprendizagem. A verdade surge no exercício do consenso,
nem sempre fácil, mas sempre necessário.


Conquistamos a liberdade de pensar, mas ainda somos
moldados em nossas ações por obra das ideias dominantes. Temos, então,
a sensação de que nossas ideias pessoais nada resolvem, de que são
fracas e impotentes. Isto comprova de que o mundo e as pessoas são
movidos por ideias, que sempre estão em disputa na sociedade. E
comprova que, isoladamente, nossas ideias perdem fôlego, não
conseguindo concretizar-se. Somente as ideias gestadas e praticadas
coletivamente conseguem romper com a lógica ideológica dominante, e
conseguem traduzir-se em prática da vida cotidiana daqueles que
resolvem assumir-se como sujeitos de seus conhecimentos e de sua
história.


O problema é que nas ditaduras não somos educados para a cooperação e
a solidariedade. Prevalece a cultura hedonista (de culto ao eu), que
reproduz a ideia e o conceito dos vencedores. Aos vencedores, a
glória. Aos vencidos, os sentimentos de incompetência, revolta e
impotência. E estes últimos sentimentos geram muitas tensões sociais e
de convivência, desfavorecendo nossa condição de seres em relação.


A autonomia dos sujeitos é o maior marco da concretização de uma
democracia real e verdadeira. A luta por democracia invoca novas
relações interpessoais, baseadas na interdependência e na
reciprocidade. Jean Piaget, ao estudar o juízo moral das crianças, nos
ajuda a considerar que “a autonomia só aparece com a reciprocidade,
quando o respeito mútuo é bastante forte, para que o indivíduo
experimente interiormente a necessidade de tratar os outros como
gostaria de ser tratado”.


Não é democrática a sociedade que não tolera os pensamentos
divergentes e que combate as diferentes formas de organização social
que buscam praticar e viver as ideias coletivas. Democrática é a
sociedade que permite aos homens e mulheres realizarem-se em sua
dignidade, preservando seu modo de ser, pensar e agir, individual e
coletivamente. Pratiquemos e aprendamos, pois, a democracia,
intensamente, sem nenhum culto às ditaduras.


Afirmemos, definitivamente, a democracia como a solução dos problemas
coletivos. Fora da política (e da democracia) não há caminhos que
promovam a dignidade e a liberdade humanas!
















Professor, escritor e ativista de direitos humanos
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terça-feira, 26 de julho de 2016

Nei Alberto Pies escreve: Partidos, pragmatismos e ideologias





O pragmatismo está mesmo matando a essência da política: a construção
do bem comum.

Nas últimas décadas, aprendemos fazer política através dos
partidos.Fundamos e construímos partidos como ferramentas de mudança e
transformação social.

Hoje, os partidos no Brasil não fazem mais alianças programáticas e
ideológicas, mas somente acordos de interesses pela tomada do poder, o
que empobrece a política e a torna um grande balcão de negócios e de
interesses. O pragmatismo não concebe mais a construção de um capital
social ou a manutenção deste junto aos eleitores. O pragmatismo
impõe-se para sufocar a diversidade dos pensamentos. O pragmatismo
opera resultados, não importando-se com os processos.

O que acontece em Brasília reproduz-se, em larga escala, em nossos
municípios. Surgem então, perguntas emblemáticas: a) Os partidos
perderam sua função de organizar propostas e programas para governar
nossas cidades? b) É possível fazer política fora dos partidos? c)
Será agora a grande mídia, o Judiciário, o Ministério Público e a
Polícia Federal que darão os ordenamentos jurídicos, organizativos e
políticos da política?

As circunstâncias do momento histórico colocam em cheque quase tudo o
que aprendemos sobre política e organização social. Desaprendemos
fazer política? Desconsideraremos, por definitivo, as mentes críticas,
as organizações e movimentos sociais, os lutadores que ainda estão a
fim de organizar a sociedade com base na cidadania, nos direitos
humanos e sociais, nas oportunidades de estudo, cultura e trabalho
para todos?

Fato é que, fora da política não há soluções que promovam a liberdade
e a democracia. Fora da política reina a ditadura. Antes tarde que
mais tarde, resistamos pelas práticas democráticas que nos permitiram
experimentar uma cidadania com mais oportunidades para todos e a
construção de cidades que respeitem as vontades e a necessidades dos
seus habitantes. As cidades não podem ser concebidas como reinados;
elas devem conceber o debate, a pluralidade e a prática cotidiana da
democracia.

As práticas sociais e políticas sempre devem construídas com a baliza
dos méritos e métodos.Democracia é poder do povo e deve ser exercida
todos os dias, em todas as instâncias e respeitando todas as
ideologias.

















Professor, escritor e ativista de direitos humanos

sábado, 23 de julho de 2016

Crítica social e reflexão humana no novo livro de Luiz Carlos Freitas


A literatura é amante fiel do escritor que lhe oferta amor.   Fiel e exigente, com requintes de  primadonna. Sei do que estou falando, pois a ela já dedico muito mais da metade de minha vida.  Um  pouco menos agora, pois abri espaço às telas, aos pincéis, arte que  não  exige menos do que me exigiu às letras.  Luiz Carlos Freitas, amigo de vários anos, escritor competente e talentoso, saberá avaliar está dedicação fiel, às vezes doentia, à literatura, que nos rouba a paz, precioso tempo de nossas vidas, mas que, ao fim, brindá-nos com os  afagos de seu amor exclusivista e egoísta. Pois Luiz, servo dedicado, paciencioso e apaixonado, anuncia nova obra, que se nos parece instigante, a começar pelo nome. Homo Perturbatus é a graça do novo romance do escritor pelotense, autor de várias obras de cunho social e psicológico. O texto a seguir é da jornalista  Ana Cláudia Dias, do Diário Popular, reportando-se ao livro que será lançado dia 28 próximo, na Livraria Mundial, a partir das 18 horas. (Manoel Soares Magalhães) 



Crítica social e reflexão humana no novo livro de Luiz Carlos Freitas

No novo romance, "Homo Perturbatus", escrito aborda a sociedade e a perda de referenciais humanos.

Mais do que tecer uma crítica social, Homo Perturbatus, sétimo livro da carreira de escritor do jornalista Luiz Carlos Freitas, se propõe a levar o leitor a uma reflexão sobre o homem e suas relações. A mais nova obra do pelotense tem lançamento e sessão de autógrafos nesta quinta-feira, a partir das 18h, na Livraria Mundial, onde está à venda.

Por meio de uma trama entremeada por mistérios e questionamentos, Luiz Carlos Freitas conta a história de dois irmãos gêmeos, separados propositalmente para um experimento supostamente científico. Aos 18 anos anos as vidas dos dois voltam a se cruzar e, a partir daí, uma série de acontecimentos evidenciam que o amor, a fraternidade, a solidariedade e o conhecimento são chaves para que as novas gerações tenham um futuro.

Para o autor o ser humano está em decadência, perdendo seus referenciais. “Há uma necessidade urgente de se criar novos valores e parâmetros de convivência, baseado principalmente na tolerância, fraternidade e igualdade. Vejo que a sociedade caminha a passos largos para o caos, se não houver mudança a queda é irreversível”, diz.
Luiz Carlos Freitas considera a trama complexa, que une suspense e romance a temas filosóficos e antropológicos, um “divisor de águas” na carreira de escritor. “Consegui conquistar a voz própria na literatura”, diz. A obra que sai pela editora Selo Jovem, de Ribeirão Preto.
Sobre o título, Homo Perturbatus, Freitas explica que é uma expressão utilizada pelo biólogo francês Jean-François Bouvet ao expor que o homem está em processo de involução. Um retrocesso que o escritor pelotense percebe ao constatar que a mesma sociedade que clama por liberdade, está mais repressora. “Estamos revivendo a Idade Média.”

Literatura própria

Autor de outros seis livros anteriores, Freitas diz que dois deles cooperaram fortemente para este momento. Odeio muito tudo isso (2009) e Morimundo (2011) foram essenciais para o escritor se desvencilhar dos estilos que o influenciaram durante alguns anos e conseguisse desenvolver uma literatura própria. 

Apesar do romance de estreia, A revolta dos agachados, ter sido editado em 1997, Freitas fala que a literatura sempre esteve presente na sua vida, mesmo antes de ser alfabetizado. “Nasci com o vírus da literatura”, brinca. E foi nos clássicos que começou a sua formação. “Tive influência literária baseada nos escritores russos e franceses.

Sobre o título, Homo Perturbatus, Freitas explica que é uma expressão utilizada pelo biólogo francês Jean-François Bouvet ao expor que o homem está em processo de involução (Foto: Infocenter DP)