segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Nei Alberto Pies escreve*: Crise da ética e ausência de justiça

Antonio Mesquita Galvão sempre foi um autor referência em
moral e ética na perspectiva que aprendi na minha formação
crítica-humanística: não haverá paz sem que haja justiça. Em 1997,
escreve livro com o título “A crise da ética: o neoliberalismo como
causa da exclusão social”. Tenho este livro e reli o mesmo para
escrever esta reflexão. Em seus 90 livros escritos, Antônio Mesquita
Galvão revela-se profundo conhecedor dos temas que relacionam ética,
moral e cristianismo.

Assim ele mesmo se revela: “enganem-se ao me imaginar cristão de
sacristia: sou atuante, trabalho em comunidades (...), ministro da
esperança, dou aulas em casas de formação, assessoro workshops de
teologia, coordeno círculos bíblicos e animo retiro de padres,
religiosos e leigos. Inscrevam-se! Se querem currículo, deixei de
dizer “Mestre em escatologia”. Desculpem por eu ter estudado. Ok?”

Em 97 escreveu: “A falta de ética pode ser encontrada no fim de muitos
raciocínios indagadores a respeito da desordem social que há em nosso
país”. Naquele contexto, o Brasil sofria as consequências nefastas das
ideias neoliberais que eram aqui implantadas. Vinte anos depois, o
Brasil descobre-se corrupto. A corrupção, embora reconhecida problema
grave, está longe de ser um problema suficientemente sério para ser
levada a sério por todos os brasileiros.

Prossegue Galvão: “A ética, como ethos (bom comportamento moral vivido
à luz do direito natural), não é vivida nem buscada, e, por
configurar-se uma situação de injustiça, não há paz. “A justiça
produzirá a paz!” (Is 32,17), ensinou o profeta. “A falta de paz numa
sociedade é indicador da ausência de justiça. E, nesse particular,
ética e moral funcionam como colunas de justiça”.

Redescubro Galvão agora em setembro de 2016, afirmando seu histórico
de estudos e reflexões na área: (eu lecionei Ética na universidade e
escrevi dois livros sobre o tema, Crise da ética e Ética cristã e
compromisso político) publicando um artigo no Zero Hora
(http://zh.clicrbs.com.br/rs/opiniao/noticia/2016/09/antonio-mesquita-galvao-a-vergonha-da-delacao-premiada-7482472.html).
Neste artigo, o autor afirma que no Brasil acontecem coisas curiosas
se não fossem trágicas e imorais, que vistas com olhos da ética formal
chegam a revoltar e nos levar a duvidar da instauração de um Estado
decente.

Questiona o uso indiscriminado e abusivo do Instituto da Lei Penal, a
delação premiada: “Não é porque o bandido "entrega" o resto da
quadrilha que ele mereça credibilidade para tomar parte ativa no
processo, ou se torna menos bandido”. Escreve também: “nos
subterrâneos da ética constata-se a prática pragmática dos fins que
justificam os meios. O cara é criminoso, corrupto ou calaveira, mas
para ajudar a justiça ele recebe o placet, como se testemunha honesta
fosse”. “Incentiva-se os jovens às atitudes morais, mas ensinamos a
delação premiada, que é uma ruptura ética”.

Concordo e retomo as sugestões de Galvão. Perspectivas de ação cidadã
e da ética e da moral, com novos desdobramentos para as novas
gerações. Enquanto não praticarmos a justiça, não haverá
possibilidades de paz!














Professor, escritor e ativista de direitos humanos.

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quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Leonardo Boff escreve: Golpe de 1964 e golpe de 2016 - a mesma natureza de classe

Entre o golpe de 1964 e o golpe de 2016 há uma conaturalidade estrutural. Ambos são golpe de classe, dos donos do dinheiro e do poder: o primeiro usa os militares, o outro o parlamento. Os meios são diferentes mas o resultado é o mesmo: um golpe com a ruptura democrática e violação da sobernia popular.
Vejamos o golpe de 1964. René Armand Dreifuss em sua monumental tese na Universidade de Glasglow:“1964: a conquista do Estado, ação política, poder e golpe de classe” (Vozes 1981), um livro de 814 páginas das quais 326 são de documentos originais, deixou claro: “o que houve no Brasil não foi um golpe militar, mas um golpe de classe com uso da força militar”(p.397).
O assalto ao poder de Estado foi tramado pelo general Golbery de Couto e Silva utilizando-se de quatro instituições que difundiam a ideia do golpe: o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), o Grupo de Levantamento de Conjuntura (GLC) e a Escola Superior de Guerra (ESG). O objetivo manifesto era: “readequar e reformular o Estado” para que fosse funcional aos interesses do capital nacional e transnacional. Eis o caráter de classe do golpe.
O assalto ao Estado se deu em 1964 e severamente em 1968 com repressão, tortura e assassinatos. O regime de Segurança Nacional passou a ser o Regime de Segurança do Capital.
Para o golpe de 2016 temos uma minuciosa investigação do sociólogo e ex-presidente do IPEA Jessé Souza “A radiografia do golpe” (Leya 2016). Semelhante ao golpe de 1964, Jessé desvela os mecanismos que permitiram a elite do dinheiro a ser a “mandante” do golpe, realizado em seu nome pelo parlamento. Portanto, trata-se de um golpe de classe e parlamentar.
Jessé enfatiza além disso “que todos os golpes, inclusive o atual, são uma fraude bem perpetrada dos donos do dinheiro, que são os reais ‘donos do poder”. Quem compõe essa elite? “A elite do dinheiro é antes de tudo a elite financeira, que comanda os grandes bancos e fundos de invetimento e que lidera outras fracções de endinheirados como a do agronegócio, da indústria (FIESP) e do comércio, secundada pelos meios de divulgação que distorcem e fraudam sistematicamente a realidade social como se fosse “terra arrasada e país falido” (é exagero), escondendo os intersses corporativos por trás da fraude golpista.
O motor de todo o processo, reafirma Jessé, é a voracidade da elite do dinheiro de se apropriar da riqueza coletiva sem peias, secundada por  outros sócios como a mídia ultra-conservadora, o complexo jurídico-policial do Estado e parcela do STF (pense-se em Gilmar Mendes).
O processo de impeachment foi parar no Senado. Este promoveu a destituição da Presidente Dilma por crime de responsabilidade fiscal. Os principais juristas e economistas, além de notáveis testemunhas nas oitivas e os relatórios oficiais de várias instituições, negaram rotundamente a existência de irresponsabilidade. A maioria dos senadores nem se deu ao respeito de ouvir as oitivas de especialistas altamente qualificdos pois já haviam tomado previamente a decisão de depôr a presidenta.
O áudio vazado entre Romero Jucá, ministro do planejamento e o ex-diretor das Transpetro Sergio Machado, revela a tramóia: “botar o Michel, num grande acordo nacional com o Supremo e com tudo; aí pára tudo…e estanca a sangria da Lava Jato.” Um dos motivos do golpe, entre outros, era também livrar do braço da justiça os 49 senadores, sobre 81, indiciados ou metidos em corrupção. Desta forma, com execeção dos valorosos defensores de Dilma, esse tipo de políticos, sem moral, decidiram depor uma mulher honesta e inocente.
Condenar sem crime é golpe. Golpe de classe e parlamentar. Golpe signfica violar a constituição e trair a soberania popular por força da qual Dilma Rousseff se elegeu com 54 milhões de votos.
Ontem em 1964 e hoje em 2016, seja por via militar seja por via parlamentar, funciona a mesma lógica: as elites economico-financeiras e a casta política conservadora praticam a rapinagem de grande parte da renda nacional (Jessé aponta 71.440 pessoas, apenas 0,05% da população) contra a vida e o bem-estar da maioria do povo, submetido à pobreza. Boa parte do Congresso é cúmplice deste golpe. Nele majoritariamente vigora a mesma intencionalidade estrutural de garantir o status quo que favorece seus privilégios e seus ganhos.
O projeto do PMDB “Uma ponte para o futuro” de um deslavado neoliberalismo de enrubecer, revela o propósito do golpe: reduzir o Estado, arrochar salarios, liquidar com a política de valorização do salário, cortar gastos com os programas sociais, privatizar empresas estatais, especialmente o Pré-Sal, desvincular despesas obrigatórias da saúde e da educação, reduzir ao mínimo tudo o que tem a ver com a cultura, direitos humanos, mulheres e minorias. O ministério é constituído por brancos e em grande parte acusados de corrupção. Não há mulheres nem negros e representantes das minorias.
Temos a ver com um espantoso retrocesso politico-social, agravando a desigualdade, nossa perversa chaga social, e esvaziando as conquistas sociais de treze anos dos governos Lula-Dilma,
Há resistência e oposição multitudinária nas ruas, de fortes grupos sociais e de intelectuais que não aceitam um presidente conspirador e sem credibilidade. A ação violenta da polícia aponta para traços claros de um Estado terrorista, que através da polícia militar, pode vir a substituir o exército na repressão e controle das manifestações públicas e pacíficas.
A solução seria eleições gerais e mediante a soberania popular se escolheria um novo presidente que de fato representasse o país.













Filósofo, escritor e ex-professor de ética da UERJ.
Fonte: Blog

Nei Alberto Pies escreve: Amar a Pátria é participar ativamente dela


Uma das maiores atitudes cívicas e cidadãs é demonstrar amor à Pátria
interessando-se por ela, participando ativamente dos acontecimentos
que a envolvem no atual momento histórico. Afirmar a democracia é
atitude relevante e decisiva para vislumbrar o futuro desta nação. É
necessário afirmar e debater, de forma ampla, aberta e plural a
"participação como um direito humano”, a fim de sensibilizar e
comprometer a todos com a luta por sua efetivação no cotidiano de
todos e de cada pessoa.

De qual participação estamos falando? Quais estratégias, fundamentos e
dinâmicas serão capazes de permitir o verdadeiro protagonismo cidadão?

A participação nasce das diferentes práticas sociais, políticas e
educativas que permitem a construção de "sujeitos de direitos”. Somos
todos livres, autônomos e responsáveis pelas lutas e pelas conquistas
de uma vida na dignidade, pela melhoria das condições de vida e de
trabalho, pela ampliação dos nossos direitos, pela materialização dos
direitos já conquistados. Estamos falando da participação ativa e
cidadã, oposta à participação passiva a que se acostumou parcela
significativa da população brasileira.

A participação é um processo ativo, de protagonismo pessoal e
coletivo, crítico, plural e que contempla os diferentes pontos de
vista e interesses. Esta compreensão de participação supõe que todos,
e cada um e cada uma de nós, torne-se sujeito de sua vida e de sua
história, sem esperar que outros nos concedam benefícios ou
privilégios, em troca de nosso silêncio, omissão ou apatia.

A participação, junto com a liberdade de expressão e a organização são
condições fundamentais para que uma sociedade crie as condições para a
afirmação e vivência dos direitos humanos. Em contextos dominados pela
lógica individualista do consumo e da competição, dos atropelos
políticos e jurídicos, garantir condições para a participação se
constitui em desafio, visto que hoje nossa jovem democracia está
correndo riscos.

Importante lembrar que "direitos humanos são conquistas”. E conquistas
não surgem da apatia, mas da disposição de cada brasileiro e cada
brasileira viver plenamente o seu direito de decidir, de falar, de
viver e de conviver, em todos os lugares que a cidadania nos invoque.
Os amantes da liberdade e da democracia não marcham nas ruas, mas
ocupam as mesmas para manifestar sua indignação e reclamar seus
direitos, para que sejam asseguradas a dignidade e liberdade humanas.
Não é crime lutar!















Professor, escritor e ativista de direitos humanos

domingo, 4 de setembro de 2016

José M. Alves* escreve: Três décadas dedicadas à educação e à justiça social

Luis Borges 

Vindo a Pelotas visitar parentes, deparei-me com uma notícia que muito me alegrou. Soube que o professor Luís Borges foi agraciado com a medalha “Trezentas Onças” no ano passado, distinção oferecida por seu trabalho de pesquisa sobre o escritor João Simões Lopes Neto, e agora recebe, em 2016, atribuída pela Academia Pelotense de Letras, a Comenda que assinala o centenário de falecimento do célebre autor dos “Contos Gauchescos”. Soube também que, recentemente, foi alvo de homenagem, pelos seus 30 anos de carreira magisterial, de algumas das mais importantes instituições culturais de Pelotas e região, quais sejam: a Biblioteca Pública, a Associação de Pastores, a Associação Sul-Rio-Grandense de Professores, o Instituto Histórico e Geográfico, o já citado Instituto Simões Lopes Neto, o Instituto Francisco Lobo da Costa, o SINASEFE, Espaço Blau Nunes e a Secretaria Municipal de Cultura, capitaneadas pela Academia Pelotense de Letras.
De longa data o conheço e admiro – e não sou exceção. Sua trajetória de três décadas dedicadas à educação e às grandes causas humanitárias é sobejamente conhecida na comunidade pelotense, bem como em outras plagas.
Conheci-o na Universidade Federal de Pelotas, quando cursava Odontologia (que não concluí), sendo, então, meu professor de Metodologia da Pesquisa. Sua apresentação à turma foi bastante inusitada e impactou a todos. Ao chegar, bem à vontade, vestindo bombachas e calçando chinelos de dedo não sabíamos que era o encarregado da complexa disciplina. Sentou-se, como qualquer um de nós, antes do começo da aula. Chegado o horário do começo do período, levantou-se e, para nossa surpresa, foi para frente da classe e começou a falar. Desde o primeiro instante, sua aula nos cativou. Para além de sua figura humilde e franzina, revelou-se um mestre seguro e capaz. Conhecedor profundo da matéria, sem pedantismo ou vaidade, encantou a todos. Mestre exigente, mas carinhoso, tornou-se logo um amigo da turma. Os temas áridos e difíceis pareciam desenredar-se em sua forma de explanar, rigorosa, precisa, na qual os complicados assuntos eram “trocados em miúdos” de tal maneira, que qualquer pessoa, prestando atenção, poderia entender.   
Mais tarde, acompanhando a trajetória vitoriosa de esforço e dedicação do prof. Luís Borges pude constatar o que já se anunciava muitos anos antes: o reconhecimento de sua competência, não apenas pelos prêmios recebidos, mas também pela inclusão de seu nome em diversas e prestigiosas instituições culturais. Como todos somos sabedores, a educação e a cultura em nosso país não recebe a atenção que deveria. Deste modo, aqueles que se dedicam a esse âmbito, a maioria das vezes, também não são devidamente recompensados. Todavia, o prof. Luís Borges pelo seu feitio de homem idealista, que se tem dedicado há 30 anos à educação, segue adiante, sem esmorecer em face do descaso e mesmo da inveja.
  A comunidade de Pelotas e região só tem a agradecer os grandes serviços prestados à cultura e à história pelo prof. Luís Borges, nesses 30 anos de produção intelectual, ainda mais quando vem acoplada à integridade de caráter, que reconhece na ciência e no conhecimento um caminho para a eliminação das injustiças sociais.

*Adminstrador de empresas


terça-feira, 23 de agosto de 2016

Nei Alberto Pies escreve: Liderança e reconhecimento: uma construção social.

Vendem-se por aí pacotes com dicas e propostas para quem quer
exercer liderança em diferentes grupos ou segmentos sociais. Estas
propostas buscam despertar a liderança das pessoas ou buscam, tão
somente, ensinar jogos e combinações de manipulação de outros em favor
próprio? A capacidade de liderar é algo que pode ser ensinado? Os
diferentes grupos sociais aceitam o mesmo padrão de liderança?
Existem outras questões que, há tempo, me intrigam: as pessoas nascem
com o dom de serem líderes? Dá para a gente impor um estilo de
liderança para todo mundo? Em que medida é possível medir o grau de
confiança entre lideranças e liderados?

Somos seres sociais em busca de reconhecimento. A maioria das pessoas
busca este reconhecimento através das habilidades e competências
inerentes ao seu trabalho e sua atuação social. Esperam, assim, um progressivo
reconhecimento dos demais pares. Quando a liderança não é imposta, há
um desejo de mútuo reconhecimento, respeitando os diferentes papéis e
responsabilidades
de cada um. Há, no entanto, um porém: mesmo legítima e aceita pela
maioria, uma liderança nunca será unanimidade.

Quando a ascensão das lideranças se dá de forma quase natural, não
gera tantas resistências e incompreensões. Geralmente,
as oportunidades de liderança surgem a partir de destaques pessoais,
associados a uma oportunidade de exercício de poder. Exercer certa
liderança sempre nos dá poder. Este poder sempre nos é delegado por
alguém, ou por um coletivo que acredita em nossas capacidades pessoais
para representar os interesses da coletividade. Se assim não o for,
não é legítimo e não deve ser reconhecido.

Muitos, ao ocuparem certa posição social ou autoridade, personificam o
próprio poder, tornando-se eles próprios a razão de ser do poder e da
liderança. Distanciam-se da coletividade que representam, tornando-se
uma grande ameaça à mesma. A forma de exercermos liderança tem a ver
com a nossa personalidade, o nosso jeito de lidar com a vida e com o
mundo. A agressividade, que muitos pregam como ponto forte para quem
deseja liderar um grupo social, nem sempre é a melhor forma de
interação coletiva. O carisma, ou a falta dele, é um fator fundamental
para consolidar uma liderança.

A sensibilidade, para a percepção das necessidades do grupo liderado,
é indispensável para o reconhecimento de nosso papel de líderes; o
diálogo permanente é a melhor forma de reatar os laços de confiança,
esclarecer dúvidas e incompreensões; a disponibilidade de servir, mais
do que ser servido, é o gesto mais nobre e verdadeiro de uma grande
liderança.

Quem exerce liderança deve ter a percepção dos limites de seu poder. O
lugar que ocupa sempre é transitório e se dá dentro de um contexto
histórico. Sempre haverá alguém com mais poder acima dele, como também
existe poder que vem de quem está abaixo de sua posição social. Não
acreditamos que liderança seja uma “capacidade nata”. Acreditamos que
há predisposições pessoais que podem colaborar para alguém exercer uma
grande liderança. A capacidade de liderança pode ser aperfeiçoada por
cada um de nós, pois ninguém é totalmente incapaz e, igualmente,
ninguém está totalmente preparado para servir os outros. A liderança e
o reconhecimento social são conquistas cotidianas de quem pretende liderar
pessoas.















Professor, escritor e ativista de direitos humanos.
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Área de anexos

sábado, 20 de agosto de 2016

Teste de visão será realizado em comemoração ao Dia da Infância



Em comemoração ao Dia da Infância, celebrado em 24 de agosto, o projeto Vi-Vendo aplicará testes de visão em crianças entre 5 e 10 anos de idade. Os exames serão feitos na Capelania, que fica no Campus I da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), das 9 às 11h e das 14 às 17h.

Todas as crianças com a faixa etária contemplada podem comparecer à programação. O exame é gratuito, mas serão aceitas doações de agasalhos ou um quilo de alimento não-perecível. No teste de visão é utilizada a Escala de Snellen e através dela as crianças são informadas se tem ou não problemas. 

A aplicação do teste é simples, de baixo custo e pode ser feita em cerca de dois minutos. Para fazê-lo, é preciso a utilização de uma tabela (escala que utiliza a letra E em diversas posições) e que deve ficar a cinco metros da criança. O local também deve ser tranquilo e bem iluminado. Caso o teste aponte algum problema, ele deve ser repetido em um outro dia, por uma outra pessoa. Através do teste, que pode ser aplicado por qualquer pessoa treinada, suspeitas de déficit visual podem ser detectadas e preventivamente tratadas. 

O exame faz parte do programa UCPel Mais Saudável, e virou projeto de lei, aprovado pela Câmara de Vereadores de Pelotas. No entanto, ainda falta regulamentação pela Prefeitura de Pelotas, que determinou a realização de estudo e planejamento para a implantação do programa com segurança e eficácia.


terça-feira, 9 de agosto de 2016

Nei Alberto Pies escreve: Reflexões contemporâneas e urgentes




Vivemos num momento histórico rico, denso e controverso. A realidade contemporânea tem diferentes textos e contextos, que precisam ser lidos e interpretados. Nesta perspectiva, junto aqui alguns pequenos textos por mim elaborados e publicados, em separado. Juntos, pretendo dar a eles um contorno e uma articulação, cuja intenção é dar maior interpretação ás diferentes realidades nas quais estamos inseridos.

*
Um dos maiores desafios do mundo contemporâneo: recomeçar. Recomeçar não é começar do zero, mas fazer de novo com mais experiência. Este desafio aplica-se à vida pessoal, às organizações, aos partidos, às escolas, aos diferentes coletivos. Para tanto, é necessário desaprender para aprender de novo. Quem tiver humildade e coragem para tanto, será mais equilibrado e mais realizado.
*
Quem luta também educa. Quem ama, também educa. Quem não anula e menospreza sua consciência, ganha mais vida na dignidade, justamente por assumir-se como é. Para os educadores, a educação não é um fim, mas sempre meio para estimular as condições subjetivas, materiais e sociais para que toda pessoa possa sonhar e conquistar sua felicidade. Para que a felicidade aconteça, é preciso muita coragem para viver e para lutar por nossos direitos e nossa dignidade.

*
Nem padre, nem pastor ou líder religioso, sou professor! Como líder religioso, falaria apenas a partir de uma religião. Como professor, posso apresentar o conhecimento acumulado de várias religiões, sem comparar e desmerecer uma em detrimento de outra.

*
Aos vencedores, a glória. Aos vencidos, os sentimentos de incompetência, revolta e impotência. E estes últimos sentimentos geram muitas tensões sociais e de convivência, desfavorecendo nossa condição de seres em relação.

*
Eu tenho convicção de que os poderes da república precisam ser autônomos e respeitados, mas que a solução dos problemas brasileiros não será fora da política, da democracia e da representação dos diferentes interesses da coletividade, através dos parlamentos. A maioria dos políticos atuais me envergonha, mas isso não me dá o direito de desacreditar na política. Para o Brasil evoluir, precisamos de uma ampla e irrestrita reforma política, que não interessa aos atuais mandatários e políticos.

*
O sentido maior da compaixão para com os pobres: não os defendemos por serem bons ou anjos, mas porque são parte de uma sociedade desigual, que não sabe lidar com eles.

*
O político na educação não é o ideológico-partidário. O
político na educação refere-se sempre às ações e intervenções na
sociedade.

*

A desobediência civil, através da irreverência, do inusitado, do inesperado e da surpresa sempre foi uma forma que os ativistas do mundo afora encontram para chamar atenção de suas causas. O que não podemos admitir são as reações estúpidas das forças policiais que tem por missão defender, não atacar. Não queiramos ensinar ninguém a protestar.















Professor, escritor e ativista de direitos humanos
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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Luís Borges* escreve: O mistério do amor


Para Cris, minha linda e estimada esposa.          


“O casamento feliz é e continuará a ser a viagem de descoberta mais importante que o homem jamais poderá empreender.” (Soren Kierkegaard)




Falávamos sobre os “tempos bicudos”, como dizia o saudoso Mario Quintana. Em vista disso, comentei, pois, que já amanhecia cantando aleluia (a rigor, aleluia não admite plural). O meu jovem interlocutor, professor de língua portuguesa e literatura, que atende pelo primeiro nome do célebre personagem dos “Les Misérables” (1862), Jean Valjean, perguntou o porquê de tão inusitado estado d’alma. Respondi, qual Manuel Bandeira: “Que é de ti, melancolia?/Onde estais cuidados meus? Sabei que a minha alegria/É toda vinda de Deus...”

Tenho até vergonha. Talvez seja afronta. Sou feliz. Simplesmente. Quais os motivos? Muitos e nenhum. Uma felicidade que se explique, é, por natureza, falsa. Mas se, contudo, tivesse de dar satisfações de minha tão estranha felicidade em meio a um mundo tão mau, diria sem titubear – o amor. Estar unido a quem se gostaria de estar é, com efeito, caso bem raro. Mais raro ainda é confessar essa façanha, que nos confere no instante indefinível o sabor da eternidade, principalmente, numa civilização como a nossa, que decretou o descartável como um verdadeiro culto.

A alegria do amor, porém, não se entrega de imediato, como a paixão. É preciso apurar o paladar do coração. Digo coração no sentido em que lho entendiam os antigos hebreus. Em geral, estamos acostumados a associar o coração às emoções. Assim também o via o Povo do Livro, mas com uma sensível diferença da nossa forma de conceber, pois consideravam o coração como o centro do intelecto, das capacidades mnemônicas e volitivas. Dessa forma, quando a Bíblia nos convoca a amarmos a Deus de todo nosso coração, como em Deuteronômio 6.5, se refere à integralidade de nosso ser: razão e sentimentos. 

Na forma do paleo-hebraico, o vocábulo “coração” (“Lev” em hebraico) é formado por duas letras. A primeira letra, chamada lâmed, tem o desenho do cajado de um pastor, símbolo de autoridade. O antigo pastor de ovelhas utilizava seu cajado para direcioná-las a um rumo específico, como uma fonte de água ou pastagem. Essa letra, em hebraico, quando unida a uma palavra, adiciona a preposição “para” a esta palavra. A segunda, chamada beit, que significa “casa”, tem o desenho da planta baixa de uma tenda nômade, trazendo a ideia de estar dentro de uma habitação. A própria letra beit, quando precede uma palavra, possui a função da preposição “em”. Por exemplo, em hebraico, a palavra midbar significa “deserto”. Se colocarmos o beit, fica bemidbar, palavra que significa “no deserto”, que é o nome original do livro de Números. Quando estas duas letras estão combinadas, elas representam o sentido de “autoridade interior”. Ou seja, o coração é aquilo que “governa a casa”, isto é, o modo como a razão, a consciência e as emoções fundamentam e norteiam as atitudes humanas.

O amor é um alumbramento. Definir o amor? Ora, tenham santa paciência! Isso é tarefa impossível; vivê-lo, porém, é (pro)vocação indispensável. Começamos a reconhecer o amor, não pela sua face impetuosa, mas pela porta gentil da ternura. Os pequenos grandes nadas. O amor, todavia, é um tanto incômodo, eis que se instala na sala de jantar de nossa vida, como se nascesse uma flor, parando o tráfego, no meio do concreto. Mesmo os mais loucos dentre nós, estávamos tranquilos em nossas vidinhas burguesas antes de sua chegada. Estava tudo tão bem organizado: nossos sonhos, nossos ideais, nossas ambições e misérias. Mas o amor, como o próprio Deus, não é um personagem manipulável. Quiçá, desenhamos um tipo ideal: a cor da tez, a medida dos quadris e, é claro, os olhos fatais. Quanta ingenuidade! O amor é muito mais perigoso! A atração é apenas a antessala do amor. Talvez seja por isso que estou em lua-de-mel há mais de uma década. Alguns pratos quebrados? Sim, mas o que são alguns cacos, diante de uma grande coberta de mesa?

O amor é esperto e faz tocaia, nos pegando desprevenidos, soprando uma novidade inquieta que traz paz. Finalmente, desorganiza nossas velhas certezas, revela nossos medos e subverte a hierarquia que havíamos estabelecido. A beleza do amor é sorrateira. Isso porque é mais ousada e surpreendente; está livre de estereótipos. Liberta-nos de nossas tolas idealizações, pois irrompe em vida, com a riqueza das lágrimas, a sonoridade dos risos e a intensidade das canções. O amor nos conduz, náufragos, a um porto seguro.

O amor ágape, mais elevado que o amor erótico (que não deve ser desprezado) é, como tal, transcendente, estando além de toda definição possível. Nessa medida, para usar a feliz expressão de Gabriel Marcel, é “mistério”. Um amor puramente romântico, que liga dois seres dentro de um restrito universo de prazer e egoísmo seria indigno dos arcanos mais profundos. Para o psicólogo Erich Fromm em sua conhecida obra “A arte de amar” (1956), ao contrário do senso comum, afirma que o amor não é algo fácil de ocorrer ou espontâneo, ele deve ser aprendido; ao invés de um mero sentimento que acontece, é uma faculdade que deve ser cultivada para que possa se desenvolver - pois é uma "arte", tal como a própria vida. 

O mito do amor romântico ou cortesão aparece como o domínio do desejo incontrolável e transgressor. É uma espécie de encantamento.  O escritor latino Horácio, num dos seus Epodos (Epodo V), escrito em 30 a. C., já o relata, referindo-se à composição de um “elixir do amor”, a partir do fígado de uma criança que as bruxas fizeram morrer lentamente. Na Idade Média, ressurge com o mito de Tristão e Isolde, no qual o casal que dá nome à história se apaixona após beber a poção por engano, engendrando-se ali um caso de adultério. Nas primitivas versões da história o elixir teria efeito temporário, ao passo que nas versões da literatura cortês seu efeito seria perene. A versão cavalheiresca do mito dá a conotação do conteúdo trágico que envolve o amor-paixão. A literatura e as artes, em geral, não cansaram de explorar esse tema, do que são exemplos clássicos a ópera “Elixir do amor” (1832), do compositor italiano Gaetano Donizetti, e a versão de Goethe do mito de Fausto (1808), em que Mefistófoles dá ao personagem-título de beber, na cozinha de uma feiticeira, a poção do amor.

Como se pode observar, o assunto é longo e complicado, extrapolando, evidentemente, os limites deste singelo artigo. Entretanto, basta que situemos, no Ocidente, o mito do amor romântico como um engodo desastroso e infantil, que tomou força no século XIX com o movimento artístico-filosófico (e até mesmo teológico, embora não da ortodoxia cristã) que se intitulou Romantismo. Durante o romantismo o amor-paixão passou a ser encarado como o fator mais essencial da vida. Todavia, constituia-se num sentimento irracional e, na maioria das vezes, destrutivo, masoquista e individualista. Tal desenho do seja o amor infesta até hoje a sopa rala das novelas televisivas e das músicas que embalam a indústria cultural.

Para o filósofo Zygmunt Bauman vive-se uma era de "amor líquido". A realidade virtual fez com que os relacionamentos ganhassem mais fluidez em comparação aos laços reais (que exigem maior exposição e compromisso), em que sempre há a alternativa de "deletar" uma relação com o simples apertar de uma tecla. Nesse sentido, as relações se tornam irrelevantes e não se fundamentam sobre a honestidade e a transparência, sendo improvável que se sustentem. Assim, se por um lado romper os laços ficou fácil, por outro, não reduzem os riscos, somente os ignoram e mascaram.

A concepção bíblica do amor é completamente diferente. Em artigo publicado, em 1999, na revista Estudos Avançados, intitulado “Cinco teses sobre a relação da religião com a política”, até pensadores antimetafísicos como Mangabeira Unger reconhecem que "uma experiência religiosa fundada na dinâmica personalista da transcendência e do amor acaba subvertendo os privilégios e as exclusões étnicas, nacionais, culturais e de gênero, mesmo quando parece atribuir a essas distinções significados e valores religiosos." Para ele, no caso da Bíblia, por exemplo, há duas raízes "subversivas": a primeira é transcender o mundo natural, fazendo da existência um lugar com um sentido e significado, a segunda, é o impulso de tornar-se o indivíduo disponível aos outros, ou seja, engajado no amor.

O amor existe porque existe Deus. Deus é amor (1 João 4, 8). A descrição que as Sagradas Escrituras fazem do amor é sublime, conforme está em 1 Coríntios 13: 1-13. Há como se provar a existência do amor? O amor não é um conceito logicamente demonstrável, mas uma experiência. Como é o sabor do doce? Para conhecê-lo, mais que a fórmula do açucar, basta colocar na boca um pouco de mel. A mais grandiosa experiência de amor foi a de Jesus, pois ele viveu por algo pelo qual valeria a pena morrer.

Enfim, curioso leitor, filósofo de alcova, o amor vai mais longe que teu insensato coração. A despeito dos inúmeros tratados que já abordaram o amor, de Platão a Hanna Arendt, em minha pequenez, o amor se resume àquele difícil, mas incontornável, movimento espiritual que divide a vida em “mexeram nas minhas coisas e sobrevivi a isso” e “morrer abraçado com elas, como um porco e seus espinhos”.    













*Escritor, crítico literário e tradutor. Professor de Filosofia, Literatura e Teologia. Pertence à Academia Pelotense de Letras e ao Instituto Histórico e Geográfico de Pelotas, entre outras instituições culturais. Completou 30 anos de magistério. Membro do Ministério da Igreja do Evangelho Quadrangular. Filiado  à Associação de Pastores de Pelotas. Doutor em História da Educação.